Falta-nos
um dos Mohicanos
Milton Fortes (*)
Final da década de 40
“Fala aí, siô!”, disse o homem, estatura baixa, terno
escuro, bigode contido, cigarro de palha em baforada,
prestes a ser alcançado pela mão firme. O rosto duro
denunciava personalidade forte, origem de terras bravias
das Minas Gerais; mineiro, só.
“Num sei, não sinhô, dotô Lucena!” balbuciou o indivíduo,
olhos baixos, como que receoso da reação do interlocutor
taciturno, severo. O delegado caminhou até a montaria
amarrada à árvore frondosa, sombra acolhedora. Alçou
a mão alcançando o bornal na garupa do alazão. O paletó
retorceu revelando o Colt cavalinho prateado que cintilou
ao sol. Sacou do bornal empoeirado um livro grosso,
meio surrado, e caminhou até o tal, de volta, assumindo
a posição de cócoras.
“Isto aqui é pro seu depoimento, sua verdade. E, olha,
eu não vou correr esse sertão quente atrás da verdade
verdadeira. Destrincha ela logo para ficar tudo nos
conformes.”
Ai, iai, ai, meu pai! “gaguejou o indiciado...”
Meados da década de 70
Jovens delegados, recém incorporados à carreira mágica
de autoridade policial, demonstravam, sem exceção,
admiração diante dos ícones da polícia à época.
Luis Soares de Souza Rocha, Helvécio Arantes, Davidson
Pimenta da Rocha, José Domingues, Zaluar de Campos
Henriques, Fábio Bandeira de Figueiredo, Antônio Dutra
Ladeira, Lindolpho Coimbra de Souza, Jair Fortes da
Silva, Antônio Assis de Lucena, estirpe de homens
acima de qualquer suspeita, já aposentados então,
famosos, alguns na capital, outros no interior imenso,
mistos de xerifes implacáveis, profissionais de polícia
inseridos socialmente, imagens que pairavam na imaginação
dos bem intencionados: aqueles, os últimos Mohicanos.
Chefes de polícia daquela atualidade: Santos Moreira
da Silva, o Corregedor; Cid Nelson Safe da Silveira,
o Diretor Geral da Acadepol; José Resende de Andrade,
Chefe do Detran; Ignácio Gabriel Prata Netto, o Superintendente
Metropolitano; Thacyr Meneses Sia, o Superintendente
Geral; Ediraldo José Marques Bicalho Brandão, o Coordenador
Geral de Segurança; Antônio Assis de Lucena, o Superintendente
Administrativo, eram admirados como semideuses.
Representantes natos das três grandes estratificações
subsistentes na polícia, a intelectual, a operacional,
a administrativa, já, então todos, no auge de suas
carreiras.
Década de 90
Dr. Antônio Assis de Lucena ainda estava lá.
2010: Antônio Assis de Lucena, Delegado Geral de Polícia
do Estado de Minas Gerais, faleceu em 14 de outubro.
Dr. Lucena!
Pequeno grande homem, olhar fugidio como que a espelhar
sua simplicidade, capaz de identificar a transitoriedade
das glórias do mundo, faiscava a vista e esmorecia
o desavisado que o confundisse e, ousasse tentar algo
escuso, soubesse ser desmerecedor de respeito ou,
o retaliasse.
O instante nos propicia um laivo de vaidade incontida,
circunscrita aos limites normais dos seres humanos,
nós que convivemos com este delegado respeitável de
história exemplar e digna. Rememoro orgulhoso, as
palavras cunhadas em 1966 pelo jornalista juiz-forano
M.R. Gomide em homenagem ao delegado Jair Fortes,
as quais fiz direcionar a Luiz Soares da Rocha, também
seu amigo dileto, pela propriedade de seu alcance,
e o faço também a este outro paladino.
“O princípio de autoridade é equivalente ao trabalho
do lapidador ao usar o escopro no talhe da pedra.
É preciso fazer-se sentir na hora certa e no momento
exato, com precisão e firmeza para que seu impacto
atinja o todo da unidade onde é exercido diuturnamente.
Essa qualidade personalística revelou um homem cujas
pesadas responsabilidades transformaram-no em figura
de primeiro plano no movimentado cenário do cotidiano.
”
Foram homens do primeiro plano e com autoridade inabalável,
estes heróis. Os últimos Mohicanos !
Sobre o Xerife Lucena:
Ficou a lembrança, os seus exemplos de vida, os seus
descendentes, todos os que lhe foram caros e presentes
no meio de nós.
A sua marca de profissional exemplar, a sua imagem,
razões a dispensar justificativas para ser considerado,
também, outro ícone da polícia de Minas Gerais.
Do passado, sabemos a sua localização física e o
temos referenciado na memória. Por nomes assim, capazes
de escrever a história, é que nós, no presente, fixamos
os olhos no futuro e devemos nos mirar em seus exemplos,
nos preparando diuturnamente para ele, “a cada segundo
do presente que logo se faz passado”, como racionaliza
o escritor português José Saramago.
O medíocre tem um apetite urgente: o êxito. Não suspeita
que exista outra coisa, a Glória, ambicionada apenas
por caráteres superiores. O êxito é um triunfo efêmero,
pequeno; a Glória é definitiva, não se altera com
o passar dos séculos. Um é mendigado; a outra, conquistada.
Antônio Assis de Lucena trilhou tal qual Luis Soares
de Souza Rocha, e os outros seus pares, o caminho
da Glória!
(*) Mestre em Política e Estratégia - ESG Escola
Superior de Guerra. Delegado Geral de Polícia aposentado;
ex auditor, advogado, administrador e consultor em
Gestão, Política e Estratégia em Governança no escritório
Décio Freire e Associados |